Leonardo Jardim: como o técnico reergueu o Flamengo na temporada 2026

Das finais perdidas no começo do ano à liderança do Brasileirão e à semifinal da Libertadores: os passos de Leonardo Jardim desde que assumiu o Flamengo em março.

19 DE OUTUBRO · 6 MIN DE LEITURA+5pontos pela leitura

Quando Leonardo Jardim assumiu o comando do Flamengo, em 4 de março de 2026, o ambiente no clube estava longe de ser tranquilo. O time vinha de um início de temporada com resultados frustrantes em decisões, a torcida cobrava respostas e a diretoria optou por encerrar o ciclo de Filipe Luís, ídolo como jogador e responsável por conquistas importantes como treinador. Sete meses depois, o cenário é completamente outro: o Flamengo lidera o Brasileirão, está na semifinal da Libertadores e tem um dos elencos mais equilibrados do continente.

Para entender a dimensão dessa virada, é preciso voltar a fevereiro. No dia 1º, em Brasília, o Flamengo perdeu a Supercopa do Brasil para o Corinthians por 2 a 0. Poucas semanas depois, veio outro golpe: a Recopa Sul-Americana escapou diante do Lanús, com derrota por 1 a 0 na Argentina e outra por 3 a 2 em pleno Rio de Janeiro, somando 4 a 2 no placar agregado. Dois títulos perdidos em sequência, em menos de um mês, acenderam o sinal de alerta e abriram caminho para a mudança no comando técnico.

A troca não apagou a história de Filipe Luís no clube. O ex-lateral teve papel importante na construção de um time vencedor e saiu respeitado pela torcida. Mas a diretoria entendeu que o momento pedia uma nova liderança, com experiência internacional e capacidade de reorganizar o grupo rapidamente. Leonardo Jardim, treinador português com passagens marcantes pelo futebol europeu e pelo Oriente Médio, chegou com essa missão e com pouco tempo para se adaptar.

Um dos primeiros desafios foi o Campeonato Carioca, que já estava em andamento. O Flamengo havia terminado a Taça Guanabara apenas em quarto lugar do seu grupo, com 7 pontos, campanha bem abaixo do padrão do clube. Na fase eliminatória, porém, o time cresceu. Venceu o Botafogo por 2 a 1 nas quartas de final, passou pelo Madureira com um 3 a 0 na ida da semifinal e chegou à decisão contra o Fluminense. O título estadual veio e funcionou como um primeiro alívio, devolvendo confiança a um grupo que precisava de uma conquista para virar a página.

Com o Carioca garantido, Jardim pôde trabalhar com mais calma na montagem da equipe para as competições mais longas. A primeira marca do treinador foi a organização defensiva. O Flamengo passou a sofrer menos gols, a se posicionar melhor sem a bola e a manter a compactação entre as linhas. Os 25 gols sofridos em 31 rodadas do Brasileirão mostram o quanto o time se tornou sólido. Para um elenco acostumado a ser cobrado por títulos, ganhar consistência defensiva foi o primeiro passo para voltar a brigar por tudo.

Ao mesmo tempo, o treinador não abriu mão da força ofensiva que é marca registrada do clube. O Flamengo tem o melhor ataque do Brasileirão, com 61 gols em 31 jogos. A equipe combina jogadores de velocidade pelos lados, como Samuel Lino e Bruno Henrique, com criatividade no meio, representada por nomes como Lucas Paquetá, Carrascal e Giorgian de Arrascaeta, e um centroavante de área que decide jogos. Pedro, artilheiro do time na temporada, encontrou no esquema de Jardim um ambiente em que recebe a bola em condições de finalizar.

Outro mérito do português foi a gestão de elenco. Em um calendário apertado, com Brasileirão, Libertadores e outras competições, o Flamengo raramente teve à disposição todos os titulares ao mesmo tempo. Jardim soube rodar o grupo, dar minutos a jogadores menos utilizados e manter a competitividade mesmo com desfalques. Na 31ª rodada do Brasileirão, por exemplo, o time teve cinco ausências e ainda assim venceu o Bahia por 3 a 0 na Fonte Nova, um resultado que diz muito sobre a profundidade do elenco.

A Libertadores é talvez o melhor retrato do trabalho. Na fase de grupos, o Flamengo somou 16 dos 18 pontos possíveis e terminou em primeiro lugar. Depois, eliminou o Cruzeiro nas oitavas de final e o Independiente del Valle nas quartas, chegando à semifinal sem nenhuma derrota na competição. O empate sem gols com o Estudiantes, em La Plata, mostrou um time capaz de sofrer, se defender com disciplina e levar a decisão para o Maracanã. É o retrato de uma equipe com maturidade competitiva.

Nem tudo, claro, é perfeito. O próprio jogo em La Plata deixou claro que o Flamengo ainda pode evoluir na criação de jogadas contra defesas fechadas: a equipe terminou a partida sem acertar finalizações no gol adversário. Em alguns momentos da temporada, o time também oscilou fora de casa e perdeu pontos que poderiam ter dado uma vantagem maior no Brasileirão. Esses ajustes são parte do trabalho que Jardim precisa fazer na reta final, quando cada detalhe passa a ter peso de título.

O estilo de comunicação do treinador também chama a atenção. Jardim costuma ser direto nas entrevistas, evita discursos inflamados e prefere falar de desempenho e organização. Internamente, a leitura é de que ele conseguiu criar um ambiente de cobrança equilibrada, em que os jogadores entendem suas funções e sabem que a disputa por posição é real. Isso ajuda a manter o elenco motivado mesmo em uma temporada longa e desgastante.

Os números sustentam a avaliação positiva. Após 31 rodadas, o Flamengo tem 20 vitórias, 7 empates e 4 derrotas no Brasileirão, soma 67 pontos e supera a pontuação que tinha no mesmo momento da temporada de 2025. Modelos de probabilidade apontam o time como favorito ao título nacional. Na Libertadores, o clube defende o título conquistado no ano passado e busca a quinta taça da sua história. Poucos treinadores conseguem, em sete meses, transformar um ambiente de crise em uma campanha com chances reais de conquistas tão grandes.

O desafio agora é fechar o ano à altura do que foi construído. A reta final reserva a volta da semifinal contra o Estudiantes, no Maracanã, uma possível final continental e sete rodadas decisivas no Brasileirão, incluindo o confronto direto com o Palmeiras na 36ª rodada. Será o grande teste da passagem de Leonardo Jardim pelo Flamengo até aqui. Se transformar a boa campanha em taças, o português terá escrito um capítulo importante na história recente do clube.

Para o torcedor, a sensação é de confiança, mas com os pés no chão. O Flamengo de 2026 aprendeu com as derrotas do início do ano, cresceu com o Carioca e se consolidou ao longo da temporada. Ainda há muito a ser decidido, e o futebol costuma punir quem comemora antes da hora. Mas é inegável que, sob o comando de Leonardo Jardim, o rubro-negro voltou a ser um time temido, organizado e pronto para brigar pelos títulos mais importantes do calendário.

Há ainda um ponto pouco comentado, mas importante: a integração entre os experientes e os mais jovens. Em vez de depender apenas de um grupo fixo de titulares, o técnico abriu espaço para atletas que ganharam minutos em jogos de menor pressão e responderam bem quando foram chamados em partidas grandes. Essa renovação gradual protege o clube para as próximas temporadas e mostra que o trabalho de Jardim não mira apenas o curto prazo. Se o ano terminar com taças, o legado tende a ir além do resultado imediato.

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